
A Vida não é um baile de máscaras¹. Não é um carnaval. Não se pode viver a encenar personagens, acostumando-se às fantasias, como a moça da canção de Chico Buarque. As máscaras e os demais ornamentos pesam e caem, e deixam à vista o eu enfermo, despedaçado ou perdido. É necessário o encontro com a Verdade. Pois não importa quantas camadas de mentira vestimos, elas não cobrem, e nos achamos sempre desnudos ante os espelhos da alma. Por mais assustador que pareça é necessário ser-estar nu. Transparente. Essencialmente perante Aquele que nos enxerga como de fato somos, e logo, perante nós mesmos. É preciso se vestir de verdade.
A Verdade nos denuncia os enganos, dos mais profundos aos superficiais, dos mais particulares aos mais universais, dos mais nocivos aos aparentemente inofensivos. Sua luz ilumina os recônditos e lugares mais distantes do nosso interior. Penetra até o ponto onde a alma e o espírito se encontram e as juntas e medulas se tocam, ela sonda os pensamentos mais íntimos². Não há o que se possa esconder e assim, melhor é não ter o que esconder e deixar-se descobrir pela sinceridade.
A verdade nos liberta do desespero: Das vivências mascaradas; do não querer ser quem é; da ignorância sobre a necessidade de ser quem é; de querer desesperadamente se ser. Nos liberta das armadilhas de nossas mentiras e más ambições, antigas e modernas, e dos arcabouços do orgullo. Em suma, a Verdade abre as portas da liberdade, onde amor ensina o que convém. Sim, pode-se escolher uma existência de máscaras e disfarces, de luxo burlesco ou indiferença, existência de plástico e tecido, mas não se pode fugir: A Verdade sempre se impõe.
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¹ Frase atribuída a Sören Kierkegaard.
² Epístola aos Hebreus 4.12.
² Epístola aos Hebreus 4.12.












































10 comentarios:
Ah, Vidal... e quando estamos naquele tempo/instante da vida em que não sabemos o que é máscara e o que é verdade? Esperamos pacientemente o momento passar?
O que me consola é que acredito que Aquele que é o dono da Verdade nos conhece tão intimamente que sabe quem somos mesmo debaixo das máscaras. E através dEle é que caminhamos para a descoberta.
Obrigada pela reflexão de fim de domingo, amigo. =)
Um beijo grande!
A beleza está na verdade e a verdade é econômica...Quando primamos pela verdade, (sabendo que a conceituação filosófica de verdade, difere do que pregam as religiões e, sobretudo o que o senso comum apregoa) ficamos em paz porque de algum modo, tudo, em algum instante emergirá, requerendo a sinceridade de propósitos de cada um.
Estar em exercício de verdade, acalma e nos confere mansuetude e alegria.
Boa reflexão.
Grata pelo comentário no 'inspirar'.
Gosto do sathyagraha dos hindus. Que fund em uma só palavra verdade e amor. Pois a verdade pode ser até relativa ás culturas e contextos históricos, mas o amor não. O amor envolvendo a verdade não permite que ela seja parcial. A verdade não a da razão, mas a do Amor. Essa é a que nos libertará.
E é essa que nós estamos em busca, né, amigo?
Abraço fraterno.
Apesar de tudo e mesmo com todas as vantagens a verdade é pesada e causa temor...
Vidal, coincidentemente eu acabei de ler um trecho sobre a verdade, vou colocar aqui pra você:
A Obrigação da Verdade
Quando olhamos um espelho, pensamos que a imagem à nossa frente é exacta. Mas basta movermo-nos um milímetro para a imagem se alterar. Aquilo que estamos realmente a ver é uma gama infindável de reflexos. Mas às vezes o escritor tem de quebrar o espelho — porque é do outro lado do espelho que a verdade nos encara.
Estou convencido de que, apesar dos enormes obstáculos existentes, há uma obrigação crucial que recai sobre todos nós enquanto cidadãos: de com uma determinação intelectual inflexível, inabalável e feroz definir a verdade autêntica das nossas vidas e das nossas sociedades. É de facto uma obrigação imperativa.
Se essa determinação não se incorporar na nossa visão política, não tenhamos esperança de restaurar aquilo que já quase se perdeu para nós — a dignidade do homem.
[Harold Pinter, in "Discurso de Aceitação do Prémio Nobel"]
Achei que cabia bem aqui.
Ultimamente ando me questionando muito sobre verdades e mentiras. Só o que posso dizer é que não sou um ser humano perfeito, niguém é, mas não suporto mentiras. E suporto menos ainda quando alguém tenta desvirtuar a verdade, falando sobre ela como numa realidade inventada e muito conveniente!
Aff...
Beijão, queridão!
Li esse texto e pensei em tanta coisa. Se for escrever aqui, vou passar a vida inteira. Lembrei de canções, pessoas, tempos... minha nossa. "Só a verdade me liberta", canta o Renato inspirado à Palavra. E eu acredito nisso. E muito.
Bjão, Vidal.
Lorena,
É muito importante o que escrevestes. Porque por esse momento todos passamos, sim, e é bom sinal. É sinal de que saímos da estaçao da ignorância. É sinal de que estamos em movimento, em construçao. Kierkegaard diria, talvez, que estamos mudando de estágio. Eu penso que a vida é composta de muitos estágios e estes se entrepõem. E assino: é através dEle que caminhamos para a descoberta do que somos.
É nEle que somos, nos movemos e existimos.
Mai,
Penso que a gente precisa encarar a verdade como jeito de caminhar. Caminhar no Amor. Assim, de certa forma, podemos encontrar verdade no senso comum e nas religioes, assim como na filosofia, contanto que seja uma verdade que se transforme em vida e que nao fique no mundo da conceitualizaçao. No mais, eu vejo uma boa correlaçao entre o que acabo de dizer e o que você postou: “em algum instante emergirá, requerendo a sinceridade de propósitos de cada um”.
Eurico,
Nao conheço o sathyagraha dos hindus, mas gostei dessa Idéia da verdade fundida em amor. E sim, buscamos a verdade do Amor, pois que a da razao a era passada e o nosso tempo já mostraram que é insatisfatória, embora tenha a sua importância.
Rap,
Sim, tens toda razao. Afinal a verdade também revela o que há de pior em nós e o que temos de mudar nao é?
Du,
Obrigado, muito obrigado pelo texto. Olha, fique a vontade para postar sempre por aqui o que achar interessante. E esse texto diz muito. Ele de certa forma vai na contra-mao do senso comum do nosso tempo, que aceita qualquer esmola como verdade. Ao contrário disso ele mostra que o desejo e a busca da verdade é uma obrigaçao séria e essencial.
Eu nao sou perfeito também, e pra ser sincero, o texto que escrevi nasceu de um olhar-se no espelho também, repito o clichê, ele foi escrito primeiro pra mim.
Letícia,
O Renato cantou e também deixou (fora do canto) muitas liçoes. Foi bom você tê-lo citado.
Gente, obrigado. Abraços!
Lorena,
Corrigindo, nem todos passam por esses momentos. Muitos preferem ficar na mesma né?
Eu amei teu texto Vidal, de verdade!
Queria que isto ficasse claro aqui.
Beijo
Olá Éverton,
obrigada pela visita e comentário.
O Adriano foi dos primeiros amigos que fiz aqui na blogosfera e um ser humano que admiro muito.
Escolhi este texto para comentar porque realmente não suporto a mentira e muito menos mentir pra mim mesma.Ser 100% franco trás os seus dissabores como sabes mas também uma enorme tranquilidade.
Vou-te linkar no meu espaço, espero que não te importes.Qualquer coisa, dizes, ok? :D
Beijos Ana Casanova
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