Caminhando a passos lentos encontrou a igrejinha. Ficava numa esquina agitada de frente a uma pracinha. Culto de doutrina à moda antiga. Sentia-se amargo e isso fez com que o culto fora também amargo. Palavras amargas e canções azedas. Um azedume só, zuada de abelha, oração doméstica e volúvel. Mas gostara tanto disso. Sempre fora fervoroso. Agora um muro. Dizia-se a si mesmo, um muro José, um muro. Era um jargão. Era a réplica de seus sermões. Tinha certeza que haveria de decidir, só não sabia o que. Quem? Estava além e aquém de cansaço, o pior dos cansaços. Estava esgotado de existir, de pensar, de construir casas onde nunca moraria. Mas não sabia nada disso, porque dentro era um silêncio só. Tem gente que não pensa porque ninguém ainda lhe ensinou. Orava e resmungava, isso ele sabia fazer. Conceito só vem depois. Existencialismo de operário cansado de ser sempre o mesmo. Queria um prazer fútil, uma puta, um cigarro. Queria fazer uma coisa inútil que o fizesse se sentir vivo e útil. Era um morto, resmungava, um morto José. Era de um mundo desabitado onde nem Deus havia. Dizia pra si mesmo que sim, que Deus existia. Nunca leu Nietzsche, mas tinha a certeza de que algum deus tinha morrido de tédio. Deus morreu, resmungava, e ria, sem ter lido Nietzsche, num culto de doutrina. A igreja era cheia de pedaços de gentes. Guernica, mas nunca viu Picasso. Era um barulho danado. Bando de corno. Não era homem pra fazer um erro. Quis gritar um palavrão, uma blasfêmia, uma aberração. Ser perseguido igual Caim. Matar o pastor e cuspir na Bíblia. Mas era frouxo e lagrimava. Zé, desgraçado, homem não chora. Saiu do culto antes do fim. Deitou na cama e cerrou os olhos. Quis gritar um palavrão, mas teve medo de acordar a mãe. Frouxo! Em cinco minutos dormia.
10 de março de 2009
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14 comentarios:
E o Zé é tão todo mundo... Quem nunca se sentiu pequeno assim, esquecido pelo mundo, em desvantagem, que atire a primeira pedra.
Eu gosto de textos que falam para todos, onde todo mundo pode se encontrar, e você, Vidal, é um mestre! =)
beijão.
Boa cara, tem hora que quero fazer isso mais sou um frouxo.
Eu quero uma puta tb.
Abraços
Amigão
bom dia,
Lembro daqueles sermões que a gente ouvia e depois pensava:foi feito pra mim!
Zé sou eu!
Não, amigão, zé sou eu! =(
é... raimundos, josés, zés... tantos iguais, longe, perto, eu, você!
P*S VC ja foi casado? Uau!! Não imaginava! Vamos curtir a solteirice..=)
beijinhos
Mópai! Quantos zés rsrsrs.
E Glayce. Tanto a solterice quanto a casadice rs têm suas vantagens e desvantagens. O lance é viver o momento né \o/.
E Vox eu ri a beça com teu comentário. Abração meu mano!
quem nunca foi frouxo como o ZÉ! eu ja quis me rebelar dessa forma diversas vezes!
O frouxo, aquele que empurra com a barriga.
Dormir, a melhor alternativa.
Dormir e deixar para o outro dia.
Dormir e deixar que as vontades sejam acalmadas.
Dormir porque a realidade é cruel!?
Melhor sonhar!!
Beijus
Zé... Larga do meu pé! Ele é um pouquinho de todos nós. Já me senti assim.
Adorei o texto. Bem criativo e realista.
Bjim*
Obrigada por seguir e visitar o meu blog.
Tenho certeza que pelo menos uma vez na vida todo mundo já se sentiu como Zé.
O problema é que quase ninguém tem coragem de assumir isso.
Abraços
Bom texto, bom texto... Realmente o Zé age como age muita gente por aí. Aliás, as vezes a gente é tão assim...
é vontade de se encontrar.
Tem muita gente que age como este Zé!...
É...de certa forma eu também já me senti e fui um Zé...
Beijos!
Quem nunca se sentiu um Zé, nunca viveu não é mesmo?
Parabéns pelo texto, não conhecia seu blog e seus textos, graças a Luciana do Entrevista Blogs agora conheço,
um abraço.
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